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mar 10 2015

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DOADORA DE SANGUE

prislila-blog

Criei-me sabendo e vendo meu pai doar sangue. Como ele é ( ainda é, Graças a Deus) O+, sempre que alguém precisava, procuravam meu pai. Houve uma ocasião em que ele doou tanto sangue que a recebedora brincou que seu próximo filho nasceria de olhos azuis, como meu pai. Assim, declarei-me doadora universal tão logo fiz minha tipagem : O-. Carreguei sempre, com o maior orgulho, minha carteira de doadora. Estreei na função, em 1972, no Hospital Santa Tereza, em Guarapuava, com uma doação direta na fonte. Ou seja, do meu braço para o braço de um rapaz esfaqueado, que já esvaziara todo o estoque da cidade, incluindo o Exército local. A próxima opção era a Faculdade. Passaram de sala em sala convidando os voluntários. Lotamos uma Kombi e lá fomos. De todos, só o meu sangue foi aceito e, deitei-me na cama ao lado do rapaz. Nunca esquecerei o seu olhar. Não sei se ele estava enxergando, mas, vendo através do coração, tenho certeza de que ele estava. O Diretor do Hospital, Dr. Aragão de Matos Leão, a quem eu conhecia desde adolescente, brincava a cada instante: cuidado com esse sangue, que é importado de Irati… Não sei se foi a sugestão, mas o rapaz se salvou. A alegria que senti ao saber disso, fez-me decidir que doaria sempre que alguém precisasse. E assim fiz, por muitos anos. Enquanto trabalhei na Caixa, até aposentar-me, atendi a todos os chamados. Eu, literalmente, dava o sangue pela Caixa.

Havia uma outra mulher, também O-, a Maria do Rocio, com a qual eu me encontrava todas as vezes, nos hospitais e laboratórios. Chamávamos uma a outra de irmã de sangue. Brincávamos sempre que se precisássemos, chamaríamos imediatamente uma a outra. Depois do surgimento da AIDS então, era quase um juramento. No entanto, por ironia do destino, ela morreu sem que eu soubesse. Talvez meu sangue a tivesse salvado, quem vai saber. Até que uma ocasião, dirigi-me ao Hemocentro para mais uma doação e recebi em casa um convite para comparecer lá. Quase morri de susto, mas, era só portadora de Hepatite A, sem o saber. E assim acabou minha carreira de doadora. Minha família deu vivas. Eram totalmente contra minhas sucessivas doações. No entanto, pouco tempo depois, meu tio fez uma cirurgia cardíaca e não pude doar. Foi uma luta conseguir todo o sangue que ele precisou. Agora, sinto-me muito mal quando alguém precisa e eu não posso mais doar. Era minha contribuição à vida. Não sei como adquiri a hepatite mas, ela me tirou uma das maiores alegrias que eu tinha.

Mesmo assim, cadastrei-me como doadora de medula óssea, com a minha afirmação de que se vive com hepatite, porém, com leucemia não. Porém, devo ser única no universo, pois até hoje não encontraram um compatível que precisasse. Se encontrarem, aqui estou. Vou adorar doar a medula óssea, mesmo com hepatite A.

Pricila Marina Koch é formada em Letras, aposentada da Caixa Econômica Federal e Coordenadora do CITPAR – Centro de Integração de Tecnologia do Paraná.

Mas também é Iratiense e doadora de vida.

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