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mar 10 2015

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Um convidado bem trapalhão

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Revi há dias no Telecine (canal 65 do pacote da Net) o clássico ‘Por um punhado de dólares’ (‘Per um pugno di dolari’, dirigido por Sergio Leone, ITA/EUA, 1966). Trata-se, nada mais, nada menos, do que o codificador dos spaghetti westerns. Deu estrutura e linguagem ao gênero. É o filme-base da ‘stetica pasta’. Foi produzido dois anos antes, em 64, nas planícies da Espanha, mas não encontrou distribuidor para o mercado americano.
Formalmente, moralmente, não é faroeste, mas escracho, chiste – gozação. Faz uma releitura do gênero.
O Oeste de Leone (com o seu roteirista Duccio Tessari) é um mundo de circo, depravado, onde pistoleiros mulambentos disparam revólveres de balas intermináveis, as mulheres são vagabundas e, na verdade, ninguém presta.
Não há hérois, é um universos surrealista, ninguém tem nada a ver com as lendas. Parece uma revisão dos filmes de samurais japoneses da década de 50.
O mocinho – Clint Eastwood, aos 34, fumando cigarrilhas e dizendo um texto sinistro, de gibis europeus – é absolutamente vazio e sem personalidade. Limita-se a passar fogo nos adversários, como quem estoura balões num tiro ao alvo de parque de diversões.
Ninguém faz a barba, todos vestem capas de chuva (mesmo dentro de casa), há poeira para todos os lados. Um simples duelo, ilustrado por música estridente e big closes assustadores, pode arrastar-se por toda a eternidade.
A sintaxe – exageros que prolongam as cenas até o limite, como se fossem pensadas em slow motion – recorda uma fantasia juvenil ao contrário. É Bambi narrado por um molestador; Branca de Neve na ótica do piloto do Enola Gay.
Leone faz pilhéria com o mítico, o sagrado. Invade nosso imaginário como um intrujão. É penetra em festa para a qual não foi convidado.
Não é western. Não tem graça.

Almir Feijó é Publicitário especializado em Marketing Político, Jornalista, autor de ‘Descríticas’ (2001) e ‘Descríticas – 316 filmes’ (2005).

 

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