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out 29 2017

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Dona Flor, por Paloma Jorge Amado

 

Dona Flor - Jorge Amado e NacibQuando o livro Dona Flor e seus dois maridos foi escrito, eu era uma mocinha prestes a fazer 15 anos. Morávamos há poucos anos na Casa do Rio Vermelho. Papai estava entusiasmadíssimo com a história que imaginara, dava gosto ver como chegava cedo à máquina, colocada em mesa de armar na varanda. Ficava lá até a hora do almoço, às vezes datilografando com seus dois dedos, às vezes parado pensando, a ponta da haste dos óculos na boca, às vezes coçando Nacib, o gato siamês que servia de peso de papel. Não tinha coragem de acordá-lo para tirar debaixo dele alguma folha que precisava, esperava com paciência e alegria. Depois do almoço a sesta era pequena, voltava para revisar o que escrevera cedo, fazia muitíssimas correções com uma caneta Futura preta. Mamãe dizia que quando estava bem ilegível, ele entregava para ela passar a limpo. Éramos, ela e eu (que assumi o serviço depois que ela virou escritora e não teve mais tempo) capazes de entender os garranchos espremidos entre as linhas. Naqueles idos, ambas as máquinas eram manuais, e mamãe datilografava com carbono, tirando 5 cópias em papel finíssimo. A xerox e outras modernidades não existiam ainda. Mais adiante, mamãe passou para a máquina elétrica e depois para o computador, sempre datilografando ligeiríssimo e com os dez dedos. Papai, até o fim da vida, se manteve fiel à sua maquininha manual, a seus dois dedos e… datilografando rapidíssimo ele também (gostava de apostar com ela quem terminava primeiro)!

Dona Flor - Deus é GordoAs cópias eram para fazermos a revisão, o trabalho da noite. Papai lia em voz alta, nós acompanhávamos com as cópias carbonadas. Dona Flor foi o primeiro livro que me foi permitido revisar. Entrar naquela roda foi uma maravilha, e a roda (tio James, tia Luiza, mamãe e João) era ampliada com a presença do pintor Floriano Teixeira, que fazia as ilustrações. Eu acho que esta tarefa me fez ter uma intimidade especial pelo livro da moça com dois amores. No meu aniversário, entre os presentes especiais que recebi (de meu pai foi o lindo exemplar das Obras Completas de Garcia Lorca, da Aguillar, encadernado em couro, papel bíblia!) estava uma pasta com os estudos de Floriano para os personagens. Uma verdadeira maravilha, onde se pode ver a imagem de Deus, gordo como disse Vadinho ao retornar.

Tanta falação para expressar todo o amor profundo que tenho por esse livro. Então, quando em 1976, já grávida de Cecília, minha segunda filha (cineasta), soube que Bruno Barreto ia filmar Dona Flor, fiquei feliz e apreensiva. Não temia por Sonia Braga, que já conhecia desde a novela Gabriela, tinha e tenho até hoje total confiança em seu talento e competência. Filme pronto, que beleza! Gostei muito. Papai que não era de elogiar, nem mesmo de ir ver no cinema para não dizer o que achou, comentou: É uma deliciosa comédia italiana, leve e engraçada. Isto dito por ele, pode acreditar, era um elogio.

Ao vender seus livros para adaptações, sempre deixava claro que ele era o autor do livro, não do filme, peça teatral ou musical. Considerava que toda a adaptação é uma recriação e que o autor do livro não pode querer se encontrar inteiramente nela. Acho que com isso se defendia, e não querer ver era o medo de se aborrecer. O filme foi o sucesso que se sabe.

Acredito que foi a partir dele que uma versão americana foi feita, em 86, sem compra de direitos. Entramos na Justiça, é claro, e ganhamos. O filme se chamou Kiss me goodbye (Meu adorável fantasma, no Brasil) e tinha Sally Field como dona Flor (que virou Kay Villano) e mais James Caan e Jeff Bridges. Eu assisti e não gostei. Vi também dois espetáculos de teatro no exterior: um na off Brodway, outro em Paris. Fracos ambos, mas engraçados. É sempre curioso ver o olhar do estrangeiro distantesobre uma obra que nos é tão próxima.

Dona Flor ainda foi fazer novela, com Giulia Gam, Marco Nanini e Edson Celulari. Giulia Gam me surpreendeu, uma bela Dona Flor, o Nanini foi o que se esperava, esplêndido e o Edson Celulari seguiu a linha do Wilker e fez de Vadinho um malandro carioca. Nada contra, como diria papai, foi a adaptação do diretor.

Papai já tinha morrido, quando Marcelo Faria nos procurou para comprar os direitos para uma adaptação teatral. Mamãe ficou bem feliz. Marcelo é filho de Kátia Ashkar, minha amiga de infância, filha de amigos queridos de meus pais. Antes de apresentar a peça, veio nos ver na Bahia. Chapéu Panamá, queria saber de mamãe se deveria ou não se mostrar de frente inteiramente nu no palco.

Dona Flor - Atores

— Claro, meu filho! Se você é o Vadinho, aja como Vadinho. Depois, um pedaço de rapaz lindo como você, vai ser sucesso garantido.

E foi. Assisti duas vezes com Carol Castro como Dona Flor e Duda Ribeiro como Teodoro. Ambos muito bem. Marcelo fez um Vadinho bem baiano, a direção de Pedro Vasconcelos foi impecável. Eu gostei muito, contei tintim por tintim para mamãe, pois ela já não saía de casa.

Segunda-feira passada fui ao Shopping Barra (aqui de Salvador), assistir ao filme Dona Flor, a nova versão feita pela dupla Pedrinho e Marcelo, agora com Leandro Hassum de doutor Teodoro e Juliana Paz como Dona Flor. Meu querido Duda Ribeiro já estava bem doente, mas participou como um dos amigos de Vadinho. O filme é em sua homenagem, e eu adorei isso. A produção demorou, o dinheiro curto como sempre, empecilhos grandes, que já não surpreendem a quem faz cultura no Brasil. Tenho que confessar que tinha minhas dúvidas a moça Juliana fazendo dona Flor. Tive medo de ser sexy demais… enfim. Ai que grande bobagem a minha. Faço aqui a Mea culpa, quero entregar a mão à palmatória e a cara a tapa (e não sou masoquista não): Juliana Paz está impecável. Perfeita! Encho minha boca para dizer que ela é a minha dona Flor. Menina, que atriz você é!

Eu gostei demais do filme. Não é uma imitação do outro, muito pelo contrário, Pedro Vasconcelos conseguiu várias soluções bem distintas para problemas de adaptação e eu curti todas. O filme é mais amoroso, mais envolvente. Será que papai diria que parece uma comédia italiana? Talvez, mas tem um visgo baiano, um cheiro de dendê, uma estripulia, uma vadiagem, que saiu direto do romance. Eu adorei!

Nos primeiros dias de novembro o filme estará nos cinemas do Brasil. Recomendo recomendadíssimo. Preparem-se para rir com Leandro, para se perder com Marcelo, e para morrer de amor por Juliana Paz.

Bom domingo a todos! Vamos ao cinema!

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